Adultos em Luto pela Morte de Irmãos

26 de Fevereiro de 2014

O Hélio Joris perdeu o irmão há dois meses. Na busca por conforto, ele encontrou este texto (publicado no site “The Compassionate Friends”. Você pode ler o original clicando aqui) e traduziu, de forma reduzida, para nós.

 

Adultos em Luto pela Morte de Irmãos

Quando um irmão morre, o mundo inteiro muda em um piscar de olhos. Frequentemente, quando uma perda ocorre, outras pessoas falham em reconhecer que o irmão que continua vivo enfrenta batalhas emocionais de diversas maneiras enquanto tenta superar a perda. Amplamente ignorado, os irmãos sobreviventes podem ser referidos como os “enlutados esquecidos”.

Dentro desse grupo de irmãos sobreviventes, existe um em particular: Aquele que vive longe de casa e se encontra em luto pela morte do irmão. No caso de irmãos adultos, atenção e palavras de conforto são direcionadas normalmente aos pais, esposa e filhos, e não para os irmãos que talvez morem longe.

 

A perda da história

Cada família possui sua própria história e laços compartilhados que são parte dessa história. Quando um irmão morre, os laços são rompidos, e a história fica sempre com um vazio que não pode ser preenchido.

À medida que as crianças crescem, elas desenvolvem certas características e talentos. Irmãos e irmãs tendem a se complementar, desenvolvendo uma espécie de balanço de interesse em diferentes áreas. No entanto, os irmãos sobreviventes precisarão redefinir os seus papéis na ausência desse relacionamento.

 

A perda do futuro

Quando um irmão morre, todos os eventos especiais no futuro serão mudados para sempre. Não haverá mais aniversários compartilhados, celebrações, comemorações ou feriados. Não haverá ligações telefônicas contando sobre o nascimento de um novo sobrinho ou sobrinha. O compartilhamento de suas vidas em eventos únicos e especiais não ocorrerão mais.

 

O que os irmãos adultos devem esperar

  • A sensação de culpa é normal. Irmãos normalmente possuem um relacionamento onde eles procuram proteger um ao outro. Apesar da distância física que pode os separar quando adultos, essa necessidade de ter proteção pesa bastante após a perda.
  • Culpa em relação ao relacionamento que vocês tinham também é comum. Frequentemente, o relacionamento entre irmãos quando adultos muda bastante em relação à infância. Cada um segue o seu caminho, e às vezes falta comunicação e sentimentos ambivalentes sobre a manutenção desse relacionamento superficial ocorrem. Não importa o quão bom era o relacionamento, o irmão sobrevivente sempre acredita que deveria ter sido melhor, causando a culpa.
  • Raiva devido às novas responsabilidades com a família também ocorre. O irmão sobrevivente talvez seja agora o responsável por cuidar dos pais em idade avançada, e ele/a podem também ter que assumir a guarda de sobrinhos. Os outros membros da família podem olhar podem procurar o irmão sobrevivente para pedir orientações. Todas essas situações podem causar raiva em relação à morte do irmão.
  • Medo da morte. Quando um irmão ou uma irmã morre, é natural que o irmão sobrevivente olhe para a sua própria vida e se questione quantos anos ele ainda viverá, e o que a sua própria morte poderia causar à família.
  • Irmãos sobreviventes podem ter mudanças positivas em suas vidas. Elas podem incluir maior força emocional, aumento na independência, e um auto exame espiritual e de convicções religiosas. Alguns irmãos sentem necessidade de promover mudanças no funcionamento de suas vidas, por exemplo se tornando terapeutas, ou trabalhando por mudanças relacionadas aos fatores que causaram a morte do irmão.
  • Mesmo quando o irmão morre, a conexão se mantém. Irmãos e irmãs sobreviventes pensam neles; falam sobre eles; lembram deles em ocasiões especiais, como aniversários, feriados e data da morte; e podem criar uma espécie de memorial. Essa conexão com irmão não precisa ser deixada de lado para seguir em frente na vida.

 

Irmãos podem ser ambivalentes em relação ao seu relacionamento em vida, mas na morte o poder de seus laços estrangula o coração do sobrevivente. A morte nos lembra que nós somos parte do mesmo rio, do mesmo fluxo e da mesma fonte, no caminho do mesmo destino. Você estava perto? Sim, mas nós não sabíamos até então.

Barbara Ascher

 

Aprendendo com os outros

A nossa sociedade com frequência faz com que as pessoas se sintam culpadas por ficar em luto por muito tempo. Essa dificuldade em compreensão das pessoas sobre o luto pode fazer com que irmãos sobreviventes escondam seus sentimentos, causando um tipo de depressão com o qual precisam lutar por vários anos.

Se o irmão sobrevivente é casado, esse estresse pode interferir no relacionamento com o parceiro. As pessoas possuem diferentes maneiras de lidar com o luto, e o cônjuge pode ficar confuso e até mesmo irritado por essa perda causar tanta dor em sua própria família. Essas situações podem provocar comentários como: “Por que você está tão triste? Você nem era muito próximo da sua família.” Por mais que isso até seja sensato, as emoções de dor e luto dificilmente são sensatas, ou racionais. Cônjuges precisam ser orientados em como dar suporte.

 

Jovens que perdem os irmãos

Jovens que estão na faculdade, ou início de carreira frequentemente tem dificuldade de enfrentar a morte do irmão quando eles mesmo estão em momentos de extremo estresse. Essa pode ser a primeira experiência de morte na família, e normalmente em seu ambiente eles encontram muito pouco apoio, podendo abusar de drogas, álcool e outros vícios para alívio da dor. Ao invés de ajudar, tais hábitos escondem a capacidade de lidar com a perda. Nesses casos, deve-se procurar reduzir atividades estressantes, e aproveitar atividades positivas que sirvam de alívio da frustração.

 

Pessoas mais velhas que perdem o irmão

Quando o irmão de uma pessoa mais velha morre, com frequência as pessoas a seu redor imaginam que a morte seja mais comum para pessoas dessa idade, e portanto não precisam dar conforto. Na verdade, tanto faz se o irmão morre com 9 ou 90 anos, a morte ainda machuca. Além disso, muitas vezes a morte do irmão se soma à morte de outras pessoas importantes na vida da pessoa, deixando um vazio de lembranças. A sua própria morte também é muito questionada.

 

Encontrando apoio

Muitos irmãos encontram ajuda ao conversar com outros sobre o seu irmão ou irmã. Porém, mesmo bons amigos podem rapidamente se sentirem desconfortáveis com o assunto, no momento em que a ajuda deles é mais necessária. Com frequência, simplesmente encontrar um outro irmão em luto para compartilhar esses sentimentos fornece o caminho da superação. Irmãos adultos podem viver em locais distantes onde ninguém está ciente de sua perda. Isso pode ser doloroso no momento em que o irmão sobrevivente anseia por partilhar memórias.

Quando os seus pais morrem, é dito que você perde o seu passado; quando o seu cônjuge morre, você perde o seu presente; e quando seu filho morre, você perde o seu futuro. Porém, quando o seu irmão morre, você perde parte de seu passado, do seu presente, e do seu futuro. Por causa dessa tremenda perda, é importante que todos trabalhem juntos para facilitar o caminho da superação.

 

 


Relato 08

11 de Fevereiro de 2014

Escrito por Aline Carvalho em 18 de abril de 2013

Minha irmã faleceu há 7 dias, com 28 anos e deixou uma filha linda de 10 e o marido. Acho que ela foi uma boa pessoa em vida para todos, quase que um anjo, posso afirmar isto. Sempre foi um exemplo para todos nós.

Sempre fomos muito unidas, nós três, as meninas Super Poderosas, rsrs… E é assim que vou me lembrar dela… E sempre procuro fugir deste momento do travesseiro, pois é horrível.

Lembro-me dos cafés que fazíamos a tarde e ela sempre chegava atrasada, como se tivesse acabado de sair da cama com umas roupas parecendo pijama e o cabelo enrolado de qualquer forma, uns tamancos horrorosos… rsrsrs…

Por mais que saibamos o significado da morte, é como se a pessoa amada jamais tivesse morrido! Quem fica não aceita, na real nunca aceitaremos, em pensar que a vida é só isso… Fazemos planos, construímos carreiras, formamos famílias e simplesmente vamos embora! Não acredito que seja “só isso” e prefiro acreditar que haja continuidade… Foi nisso que me apeguei para ter forças em continuar minha vidinha… Meus sentimentos por sua perda…


Palavras de uma mãe aos irmãos que ficam

6 de Fevereiro de 2014

Aos irmãos que ficam, meus queridos,

Sou mãe do Marcos, autor deste blog, e tia da Renata, colaboradora assídua por ter enfrentado o mesmo drama há quase 22 anos.

Vocês são os filhos que não partiram e que, pelo simples fato de existirem, nos encorajam a seguir em frente e inventar um futuro que não havia sido planejado.
Sofremos pela morte de um filho, sofremos pelo filho que ficou só, sofremos pela dor do filho que sofre só, para nos poupar.

Não, vocês não necessitam ser mais fortes que o possível e nós, seus pais, podemos ser mais fortes do que nós mesmos imaginávamos. Quando a dor for insuportável, e sempre será, procure nosso colo e vamos chorar juntos, só o calor da família pode nos aquecer e confortar.
Renata, com você, sua irmã e seus primos mais velhos, eu fiz um estágio para ser mãe e quando a Patrícia e depois a Sabrina partiram, meu coração começou a se quebrar. Mas,você sobreviveu e trouxe o Philipe e nossas vidas se iluminaram. Quando a Marília partiu,você esteve ao meu lado e trouxe o Murilo para nos alegrar. Sua missão é linda…Obrigada por existir.

Marcos,eu só quero esse sorriso da foto ao lado,cada vez que vejo esse sorriso minha vida torna a fazer sentido, há tanto futuro pela frente…te amo.

 

Escrito por Miriam Amariles Mattos de Andrade em 20 de janeiro de 2014 e publicado no aniversário da Renata.


Relato 07

1 de Fevereiro de 2014

 Escrito pro Tatiana de Oliveira em 31 de dezembro de 2013

Meu irmão caçula nos deixou na noite de Natal, faz uma semana. Não sei explicar a dor que sinto. Uma mistura de raiva, impotência, medo. Estamos tentando ser fortes pela minha mãe. Hoje, último dia do ano, tenho uma única certeza: Em 2014 ele não estará mais aqui, com seu jeito alegre, suas risadas fartas, seu olhar cheio de amor. Será o primeiro ano sem comemorar seu nascimento, sem ouvir o “Te amo, maninha”. Não sei como começar um ano sem ele. Que Deus consiga fortalecer minha família e a de todos que sofrem essa mesma dor.


Homenagem à minha irmã

29 de Janeiro de 2014

Porque eu não percebi que aquela pessoa que dormia no mesmo quarto que eu, dividindo a casa, os sonhos, a vida, era tão importante? Como eu não me expressei mais, não disse que amava, não abracei mais, não fiz mais coisas por ela? Nunca agradeci por ela ter me ensinado a escovar o dente, falar palavrão, brincar na rua… nunca disse que a admirava por ser tão doce, tão amiga de todos, tão empenhada no que queria… nunca imaginei perder… nunca imaginei ficar sem… chorei no ombro dela com medo que algo acontecesse, ela dizia que eu não devia ter medo de nada, mas olha… perdê-la era algo a temer muito sim!

Não tenho raiva, mágoa, tristeza dentro de mim, só saudade! De tudo que foi tão bom, tão rápido, tão feliz e nunca mais vai existir… 20 anos sem minha irmã… desculpem-me amigos e familiares que sabem como eu sou palhaça, mas hoje eu vou chorar um pouquinho de saudade, tá? Ela merece muito minha saudade, meu amor que sempre vai existir… Até quando me esforço pra lembrar do seu rosto e da sua voz e não consigo mais…..Todo amor do meu coração é só pra vc hoje!

Escrito por Renata Mazetti em 05 de abril de 2012, quando se completava 20 anos da morte de Patrícia Mazetti. Publicado quando se completa 02 anos de morte de Marília Andrade, irmã do autor deste blog e prima-irmã da Renata. Dupla homenagem.


Lembro

25 de Janeiro de 2014

Em noites de insônia eu penso nelas. Penso incansavelmente, lembrando cada detalhe de tudo o que passamos juntas. Minha irmã me mandando jogar a chupeta na privada, me arrastando com os braços e pernas em torno dela e ela de quatro me carregando, me puxando com o cobertor, me carregando em cima da mesinha de rodinhas. Ela com a cabeça furada e o dedão inchado no hospital, ela fazendo vestidos de lençol pra nós, ela com os sapatos de salto da minha mãe, ela espalhando os discos na cama e me mandando andar em cima, ela me mandando entrar em casa e tirar a roupa dela, ela secando o cabelo no quarto, ela deixando doce na minha cama antes do trabalho, ela cantando pintando a parede da casa nova… Tem tanta coisa… E tudo foi parar onde? Como eu resgato isso? Como eu abraço, sinto cheiro, peço conselho? Nem sonhar eu sonho mais… Nem lembro direito dela, que aperto no peito isso me dá…

E minha prima, que eu fui a primeira a saber que ia chegar. Quando eu a vi, tão pequena e bonitinha, eu só disse: “Xi, adeus Vó!”… Minha princesinha… Lembro-me dela doente no bercinho, tão pequena, e eu a olhando assustada, com medo que ela parasse de respirar… Lembro-me de cada estrelinha que ela ganhava quando fazia xixi no peniquinho, lembro-me da cabaninha da Margarida que eu montava e remontava e a gente contava segredos dentro, tantos segredos… Lembro-me dos banhos de banheira juntas, ela correndo atrás de mim com faquinha do rocambole Pulmann querendo me matar… Kkkkk… Lembro-me da mudança pra Amparo, o medo de nos separar… Lembro-me das viagens pra praia, banhos de piscina, rir até fazer xixi na calça… lembro-me das últimas conversas, e-mails trocados, choro no telefone dos dois lados… Lembro e lembro…

Acredito que eu vou ver elas do lado de lá, espero que elas ainda me amem, espero que se lembrem de mim como irmã e prima porque eu aqui penso nelas todos os dias…

Vivo agora de modo a não decepcionar. Quero o orgulho delas mais do que tudo. Quero merecer revê-las. Quero acreditar que tudo é perfeito e Deus é bom e logo tudo só vai ser felicidade juntas. Logo, eu digo, quando a gente se encontrar de novo, porque eu sei que vou ficar velha… E esse tempo todo que eu tenho aqui, como vou fazer pra suportar? Vou sobrar com classe, com bom humor, batalhando… mas em dias de insônia eu posso chorar um pouquinho mais, eu posso curtir mais as lembranças, eu posso estar mais pertinho… só nos meus dias de insônia…

Escrito por Renata Mazetti em 08 de junho de 2012 e publicado no dia que seria aniversário da prima dela, irmã do autor do blog.


Relato 06

22 de Janeiro de 2014

Escrito por Cristiane Munetaka em 25 de novembro de 2013

Sou Cristiane, perdi meu irmão há 15 dias. Éramos só eu, minha mãe e ele. Sábado passado chego em casa e vejo que meu irmão estava dormindo ainda, tentei arrombar a porta, mas ele estava com febre, como de outras vezes. Fiquei ali do lado dele durante a noite, tentando melhorar a sua febre, mas vi que algo estava estranho e chamei o resgate.

Enquanto eles não chegavam fui ao banheiro, quando volto ao quarto, ele olha para mim e cai com a cabeça ao lado. Entrei em desespero, subi em cima dele e comecei a fazer massagem, respiração boca a boca, mas ele tinha partido. Minha mãe estava trabalhando, o que eu faria, o que diria? Meu Deus, meu irmão foi embora nas minhas mãos aos 25 anos!

Minha mãe era muito ligada ao meu irmão, faziam tudo juntos. Como vou fazer? Meu único irmão, meu coração partiu. Como serei a mesma? Cuidei dele a vida toda para minha mãe poder trabalhar, éramos somente nós dois.

Como será meu futuro? Minha mãe já está com 60 anos, quem estará comigo quando eu estiver mais velha? O pior da dor é que me sinto culpada demais por não ter chamado ajuda antes, me sinto frustrada por não poder salvar meu irmãozinho!

A casa está vazia e nunca percebi o tamanho do vazio… Como pode ser tão doloroso… Preciso de ajuda e agradeço ao Marcos que criou este blog, assim percebo que não sou a única. Não sou religiosa, mas acredito em Deus, mas nestas horas é tão difícil acreditar que existe uma missão, um tempo para cada pessoa… É um desespero, uma dor que chega a ser física, meu único irmão se foi e com ele vai meu futuro…


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